terça-feira, 25 de maio de 2010

Nossa tendência ao desquilíbrio religioso




"É um objeto batido do conhecimento geral que a raça humana perdeu a harmonia e tende a desequilibrar-se em quase tudo que ela é e faz. Filósofos religiosos têm reconhecido esta assimetria e têm procurado corrigi-la pregando de uma forma ou de outra a doutrina do "meio de ouro". Confúcio ensinou o "caminho médio"; Buda queria que os seus seguidores evitassem tanto o asceticismo como o ócio corporal; Aristóteles acreditava que a vida virtuosa é a que mantém equilíbrio perfeito entre o excesso e a falta.
O cristianismo, estando de pleno acordo com todos os fatos da existência, leva em conta este desequilíbrio da vida humana, e o remédio que oferece não é uma nova filosofia, mas uma nova vida. O ideal a que o cristão aspira não é andar pelo caminho perfeito, mas ser transformado pela renovação da sua mente e ser amoldado à semelhança de Cristo.
O homem regenerado muitas vezes passa por tempos mais difíceis do que o não regenerado, porquanto ele não é um homem somente, mas dois. Sente dentro de si um poder que tende para a santidade e para Deus, enquanto ao mesmo tempo ainda é filho da carne de Adão, filho do barro vermelho. Para ele, este dualismo moral é uma fonte de aflição e de luta que o homem que só nasceu uma vez desconhece totalmente. Por certo a crítica clássica a isto é o testemunho de Paulo no capítulo sete da sua Epístola aos Romanos.
O cristão verdadeiro é um santo em embrião. Os genes celestiais estão nele, e o Espírito Santo está trabalhando para levá-lo a um desenvolvimento espiritual que esteja em harmonia com a natureza do Pai Celeste, de quem ele recebeu o depósito da vida divina. Todavia, aqui está ele neste corpo mortal, sujeito a fraqueza e tentação, e seu conflito com a carne às vezes o leva a praticar coisas extremas. "Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito contra a carne, porque são opostos entre si; para que não façais o que porventura seja do vosso querer" (Gálatas 5:17).
A obra do Espírito no coração humano não é algo inconsciente ou automático. A vontade e a inteligência humanas precisam render-se às benignas intenções de Deus e com elas cooperar. Creio que é aqui que muitos de nós perdem o rumo. Ou tentamos fazer-nos santos por nós mesmos, e falhamos miseravelmente, como certamente haverá de ocorrer; ou procuramos conseguir um estado de passividade espiritual e esperar que Deus aperfeiçoe as nossas naturezas em santidade, como alguém que se senta e espera um pintarroxo sair da casca do ovo ou uma roseira espocar em flores. Assim, trabalhamos febrilmente para fazer o impossível, ou não fazemos absolutamente nada; e aí jaz a assimetria sobre a qual escrevo.
O Novo Testamento desconhece qualquer obra do Espírito Santo em nós isolada das nossas respostas morais. Vigilância, oração, disciplina pessoal e inteligente aquiescência aos propósitos de Deus são indispensáveis para que haja algum real progresso em santidade.
Existem áreas em nossas vidas nas quais, em nosso esforço para estarmos certos, podemos errar, e errar tanto, a ponto de chegarmos a uma deformidade espiritual. Para ser específico, permita-me mencionar algumas:
Quando, em nossa determinação de sermos destemidos, nos tornamos descarados. A coragem e a mansidão são qualidades compatíveis: encontramos ambas em perfeita proporção em Cristo, e ambas esplendem de beleza em Seu conflito com os Seus inimigos. Pedro diante do Sinédrio e Paulo perante Agripa demonstraram as duas qualidades, apesar de que noutra ocasião, quando a coragem de Paulo perdeu temporariamente o seu espírito caridoso e ele se tornou carnal, disse ao sumo sacerdote: "Deus há de ferir-te, parede branqueada." Para crédito do apóstolo, quando viu o que tinha feito, desculpou-se imediatamente (Atos 23:1-5).
Quando, em nosso desejo de sermos francos, nos tornamos rudes. Franqueza sem grosseria sempre se achou no homem Cristo Jesus. O cristão que se gaba de que sempre fala a verdade nua e crua, provavelmente acabará sendo rude até com a própria sombra. Até mesmo o impetuoso Pedro aprendeu que o amor não se precipita a pôr para fora tudo o que sabe (I Pedro 4:8).
Quando, em nosso esforço para estarmos vigilantes, nos tornamos desconfiados. Pelo fato de haver muitos adversários, a tentação é ver inimigos onde não há nenhum. Pelo fato de estarmos em conflito com o erro, somos propensos a desenvolver um espírito de hostilidade a todo aquele que discorda de nós sobre alguma coisa. Satanás pouco se importa se nos extraviamos seguindo alguma falsa doutrina ou se simplesmente ficamos azedos. De um modo ou de outro ele vence.
Quando procuramos ser sérios e nos tornamos sombrios. Os santos sempre foram sérios, mas a melancolia é um defeito de caráter e jamais deve ser confundida com religiosidade. A melancolia religiosa pode indicar a presença de incredulidade ou de outro pecado e, se permanecer por muito tempo, pode levar a um grave distúrbio mental. A alegria é uma grande terapêutica para a mente. "Alegrai-vos sempre no Senhor" (Filipenses 4:4).
Quando pretendemos ser conscienciosos e nos tornamos hiperescrupulosos (ou muito cuidadosos, ou zelosos demais). Se o diabo não conseguir destruir a consciência, terá a solução tornando-a doente. Conheço cristãos que vivem num estado de constante agonia, temendo desagradar a Deus. Seu mundo de atos permitidos vai-se estreitando ano após ano até que, por fim, temem envolver-se nas ocupações comuns da vida. Acreditam que torturar-se assim é prova de vida piedosa, mas quão errados estão!
Estes são apenas uns poucos exemplos de grave desequilíbrio na vida cristã. Confio em que o remédio foi sugerido no caminho que já seguimos.”

A.W. Tozer

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